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тιago, 18 anos. Um rapaz como os outros que encontra demasiadas coisas por entre as coisas que devem ser notadas. E este é um espaço meu, entre todas as outras coisas.


 


between.




Domingo, 18 de Novembro de 2012

Uma mosca.

Uma mosca pousou-lhe perto do lábio inferior fazendo com que ela interrompesse o seu divagar, curiosamente repetido acerca do amor (oh, o quanto se pensa no amor!). Ela enxotou o vulgar inseto voador e a mosca voou para outro lado qualquer. Não a seguiu com o olhar. Na verdade, parecia-lhe cansar demasiado a visão espiar um ponto minúsculo esvoaçante no seu trajeto e zumbido irritante. Optou por repensar o mesmo que pensara antes. Deu-lhe forma. Notou que não sabia o que era o amor, mas sabia que o sentia. Sabia com a cabeça e sentia tendencialmente com o coração, mas era tudo em volta do mesmo. Cresceu-lhe um sorriso nos lábios e uma enorme força de vontade. Ainda não tinha dito o que sentia. “Coragem... coragem!”, repetia para consigo. Pegou no telemóvel e telefonou-lhe. Não pretendia dizer-lhe nada por ali, simplesmente queria combinar um encontro com ele. Foi isso que fez. A sua voz tremia quando lhe disse “Até logo.”. Seria logo, então. Logo lhe diria. No parque, no lugar onde costumavam dar alguns passeios como amigos enquanto, sem falarem disso, viam casais de namorados em bancos de jardim, apaixonados, identificando-se com aquilo, com um presumível futuro de ambos, juntos. Ambos sabiam que sentiam o mesmo, porém, faltava darem um passo. E, portanto, ia ser dado. Mais logo.

Ela pensou no que ia vestir. Pensou em levar um vestido que ele havia já elogiado ficar-lhe lindamente. E levou-o. Antes, ainda se perfumou levemente e encheu-se de autoconfiança.

À hora marcada, estava ela no parque. Mas ele não. Pelo menos não o via. Procurou-o discretamente com o olhar desperto enquanto revia casais apaixonados nos bancos de jardim. Passaram-se cinco minutos. Passaram-se dez. Começava a não fazer sentido tanta procura como se fossem realmente ainda crianças e jogassem às escondidas. Telefonou-lhe. Ele não atendeu. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira tentativa. Alguma coisa se passava. Ele era pontual, pensou. E, se não pudesse estar ali, avisar-lha-ia previamente. Já anoitecia  e começava a esfriar.  Os candeeiros do parque iluminaram-se e ela ficou ali, achando que ele tinha mesmo de aparecer. Já não havia casais de namorados apaixonados para ver, nem se ouvia mais os sons diurnos do parque, como os pássaros ou o vento a passar por entre as folhas. Não queria entrar em pânico, mas voltou a ligar-lhe. E ao mesmo tempo ouviu atrás de si um telemóvel a tocar. Poderia ser coincidência, mas era o toque que sabia que ele tinha. Não desligou a chamada, e começou a seguir o som. Chamou por ele: se era o seu telemóvel, ele deveria estar ali. Estranhamente, mas deveria estar. Entrou numa zona de arbustos onde a luz dos candeeiros não chegava com intensidade, o que lhe permitiu logo ver a luz do ecrã do telemóvel que seria dele no chão, entre a relva. Foi até ao aparelho, muito desconfiada daquilo tudo.

Usou a luz do visor do seu telemóvel como lanterna e seguiu até lá, amedrontada sem saber porquê. Pegou no telemóvel e confirmou que era o dele. Ela já o sabia, pois quando tinha desligado, segundos antes, a chamada que fazia, o aparelho que inicialmente estava mais longe, tinha parado de tocar, mas preferia não o dar como certo até então. Viu uma mancha disforme no ecrã, de um vermelho escuro. Não queria acreditar que aquilo era sangue. Arrepiou-se e pensou no pior. Olhou o escuro e respirou fundo lentamente, como se necessitasse tempo para raciocinar. Mas não precisou. A luz de um dos telemóveis que tinha nas mãos, não deu conta de qual, iluminou a relva um pouco mais ao lado. Assustou-se e deu um grito que ecoou pelo parque. Simultaneamente começou a chorar, petrificada.

Ele tinha os olhos claros esbugalhados e sangue seco na cara que lhe escorrera pela pele clara desde a testa. Junto ao lábio inferior, uma mosca esfregava as patas, fazendo lembrar um vilão oportunista satisfeito. Com o grito, levantara um breve voo, mas voltou a pousar nele. E ele não a afugentou.

Ele jazia ali. 


left by тιago às 00:26
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(30):
De Raquel a 6 de Dezembro de 2012 às 18:08
PUM! sempre a supreender (:


De Isabela a 20 de Novembro de 2012 às 19:09
Tu escreves mesmo bem. Confesso que nunca pensei este desfecho para o texto, surpreendeste-me :)
Beijinhos.


De Autumn a 19 de Novembro de 2012 às 21:04
é triste, muito triste.


De Mariana Santos a 19 de Novembro de 2012 às 19:53
eu infelizmente fico. tento para não ganhar expectativas, e embora eu diga que não, eu sei que lá no fundo fico magoada.


De sweet a 19 de Novembro de 2012 às 19:17
Aww obrigada :)


De Isabella a 19 de Novembro de 2012 às 18:42
Não tem mal nenhum Tiago! Lês quando o puderes fazer! Não tenhas pressa que eu também não, está à vontade :)


De meninapequenina. a 18 de Novembro de 2012 às 20:57
Tu lisonjeias-me completamente,Tiago,se bem que isto é quase uma troca de elogios.Tu favoritas,eu favorito.
Então,direi-te sempre que o achar.
Bem,me parecia que Fernando Pessoa balançava por aqui.
Eu entrei este ano no Ensino Superior :)


De Mariana Santos a 18 de Novembro de 2012 às 20:41
então não estás à espera de nada. fazes bem. eu espero muitas coisas das pessoas e depois elas desiludem-me.


De Autumn a 18 de Novembro de 2012 às 20:26
ri-te de mim quando te digo que a única que realmente sigo és tu. sigo a tua escrita e a pessoa que és. o resto não me interessa no sapo hoje em dia. tornou-se tudo igual se fores a reparar.


De sweet a 18 de Novembro de 2012 às 19:56
Sabes, o problema é esse. É que a pessoa está sempre viva no nosso coração, eternamente. E não há nada que possamos fazer para a apagar da nossa memória. Dói é a sua ausência, afinal de contas um ser humano não vive só do passado. E ás vezes gostava mesmo que ele estivesse aqui comigo e não está. Mas se olhar para o céu consolo-me. Porque no fundo ninguém sabe o que acontece depois da morte e como é que alguém sobrevive sem fé, sem uma crença, sem uma esperança?
Eu não sei o que acontece depois da morte, não sei se as pessoas "vão para o céu" mas quando já nada faz sentido é para o céu que eu gosto de olhar. Porque está para além do plano terrestre, está para além da compreensão do Homem, está demasiado alto, é algo inatingível, é infinito, assim como o amor que eu sentia por ele.

PS: Desculpa-me este testamento. :/


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